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"Big Brother" particular contra inimigo íntimo
Isolar-se do mundo entre quatro paredes para resolver conflitos
emocionais é a proposta da "Casuloterapia",
uma técnica de autoconhecimento. Por Tatiana Pronin, De
São Paulo
O paciente fica no mínino três dias dentro de um "casulo" de
40m2 em Piracaia, no interior de São Paulo, sem TV, livro
ou qualquer coisa que gere distração.
Passar um tempo longe de tudo, sem livros,
TV, amigos ou família, com
alguém relativamente desconhecido que só te deixa sozinho para
dormir. Nem tomar banho com privacidade é possível. Quanto se
ganha por isso? Nada. Pelo contrário, é preciso pagar. Mas, em
vez de câmeras ou concorrentes, o único companheiro dessa jornada
que à primeira vista parece massacrante é a terapeuta Helena
Martins. Ela é a criadora da "Casuloterapia", uma metodologia
que está atraindo gente em busca de resultados mais rápidos que
os proporcionados pelas psicoterapias convencionais.
O nome curioso se deu pelo cenário dessa espécie
de "Big Brother" particular. Uma casinha rústica
na cidade de Piracaia, no interior de São Paulo, onde
só se ouvem os ruídos do vento e de uma cachoeira
que fica na região. Lá dentro tudo é muito
clean e branco, para propiciar o autoconhecimento. Há um
colchão, um pufe para a terapeuta, um banheiro e um suntuoso
ofurô onde, de vez em quando, o paciente é convidado
a relaxar com pétalas de flores e óleos terapêuticos.
O tempo todo, no entanto, é estimulado por Helena a acessar
seus sentimentos mais recônditos e vivências passadas
nem sempre agradáveis. Não se pode ficar menos
de três dias no casulo e se, no meio da noite, alguém
se aventurar a deixar o "bunker" para tomar um pouco
de ar, está acabado o jogo: um segurança a postos
no terreno avisa a terapeuta e o paciente é obrigado a
voltar para casa.
Segundo a terapeuta, certos traumas, que
geralmente ocorreram na infância, são responsáveis por padrões
de comportamento que se repetem ao longo da vida, gerando angústias
e infelicidade. Só isolando-se de tudo, num processo intenso
de autoconhecimento, é possível desfazer esses "nós",
como denomina Helena. "Às vezes", ela conta, "é preciso
buscar esses fatos em vidas passadas, mas isso é muito
raro".
Juiz da 1ª Vara da Fazenda Pública, Marco Aurélio
Paioletti Costa é um dos que experimentou a Casuloterapia.
Achou interessante o fato de ser um trabalho intensivo, uma vez
que as terapias convencionais costumam ser muito demoradas. Ficar
num ambiente fechado não foi problema para ele. "Claro
que remexer nos arquivos internos não é lá algo
muito prazeroso, mas, depois, é como se tivessem tirado
um peso das costas", descreve.
Para a designer Jaqueline Terpins, que também passou
três dias no casebre, é preciso um pouco de coragem
para mergulhar na própria alma de maneira tão intensa. "A
Helena funciona como uma espécie de espelho", compara.
Em certos momentos, a designer até sentiu vontade de parar
um pouco e espairecer, desejo que logo é driblado pela
terapeuta. Mas o saldo do esforço, também para
Jaqueline, foi positivo: "Sem dúvida, houve uma melhora
na qualidade dos meus relacionamentos", testemunha.
O preço da terapia Helena se nega a divulgar, pois varia
entre os pacientes. Se, para eles, rever a história de
suas vidas sem pausa para descanso é complicado, pode-se
concluir que, para a terapeuta, também não é fácil.
Para evitar maiores problemas, como uma reação
violenta, ela faz uma avaliação psicológica
antes de levar as pessoas ao casulo. "Não é algo
que qualquer um pode fazer", avisa, citando como exemplo
personalidades com perfil psicótico. De qualquer maneira,
as paredes são acolchoadas, para proteger terapeuta e
paciente quando as catarses forem mais explosivas que a do famoso
Kléber, do "Big Brother Brasil", e sua Maria
Eugênia.
Valor Econômico - nº 485 - D5 11 de abril de 2002
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