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| Sampa
por Petrônio Gontijo
"Uma cidade feita de pessoas, muito mais do que lugares"
Lembro-me
de que foi no Terminal Rodoviário do Tietê que, voltando
pra Varginha, aos 14 anos, comprei Maior
Abandonado, meu primeiro disco do Barão Vermelho.
Uma época de descobertas, quando vi Kazuo Ohno, no Sesc Anchieta,
e logo depois Feliz Ano Velho,
no Teatro Augusta, uma peça embalada pelas músicas
do Legião Urbana. São Paulo pra mim era isso: um alumbramento
artístico viabilizado pelas canções das bandas.
Desde essa época compreendi que seria daqui o ponto de partida
para as coisas que iria fazer. Tudo pode acontecer nesse bangue-bangue
disfarçado de noir, ou melhor, tudo tem seu espaço
aqui, até a cópia tem o seu valor e chamaram de fake.
São Paulo é um lugar onde me sinto bem. Para contar
onde vou aqui, digo que, hoje em dia, costumo almoçar no
Consulado Mineiro, do Fernando Carneiro, e no Le Tan Tan, da Paula.
Para malhar, gosto de ir à Competition, onde meu treinador
é o Fernando Azevedo. Há oito anos corto meu cabelo
com o Edson Ferreira do salão Galeria. Abaixo dos cabelos,
o que faz minha cabeça é o trabalho social que a psicoterapeuta
Helena Martins desenvolve no bairro da Mooca para toda a São
Paulo.
Uma cidade feita por pessoas, mais, muito mais do que por lugares.
De qualquer forma, os lugares abrigam as pessoas e quando chego
ao aeroporto de São Paulo sinto, por incrível que
pareça, que estou protegido, que tenho para onde ir.
Gosto de comer pastel de Santa Clara na Companhia do Frei Soneca,
no Largo de São Francisco. Já o Parque Vila Lobos
é um local descampado onde dá pra perceber que estamos
num planalto. Foi aqui que o autor do hino Cegos
do Castelo, Nando Reis, me deu a alegria de ceder sete lindas
canções para compor a trilha da primeira peça
que produzi, no ano passado. O rock sempre foi o travesseiro da
minha esperança.
Em São Paulo, quando saio de casa para ir ao teatro, parece
que não estou indo para o teatro, mas voltando pra casa.
Fazer teatro nesta cidade já faz parte do meu jeito de ser,
minha melhor forma de expressão, minha carreira política.
• O ator
está em cartaz no Teatro Sesc Anchieta com o espetáculo
"K2", de Patrick Meyers, traduzido por Marco Antônio
Pâmio e Gabriel Braga Nunes (também no elenco). sob
direção de Celso Nunes.
O Estado de S. Paulo • Guia/Caderno
2 • 19 de março de 2004
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