Feiras e Eventos
Encontros e Palestras
Cultura
Mídia Impressa
Na TV
No Rádio
Cursos
 

"Uma sala em transformação"

Em "Tudo de mim", a relação de um casal muda junto com a decoração

Maria Lúcia Candeiras, de São Paulo

É impressionante a criatividade humana. Basta colecionar obras tratando de temas parecidos para se ter um pouco esta medida. Por exemplo, peças sobre relações afetivas entre casais são bem comuns, e ao mesmo tempo tão variadas. Recentemente houve, como de hábito, muitas montagens com esse assunto, sejam clássicas como "Casa de boneca" de Ibsen, sejam modernas como "Intimidade Indecente", de Leilah Assumpção, que repetiu em Lisboa o sucesso retumbante que obteve por aqui, onde agora a montagem está reestreando.

Mas não se pense que está é uma preocupação apenas da atualidade, quando proliferam as separações conjugais. Já é antiga, e que eu me lembre começou a ser abordada na literatura do Renascimento no teatro, com o entremez "Juiz de Divórcio", de Miguel de Cervantes: são vários casais querendo se livrar dos laços do matrimônio, alegando terem sido felizes no começo, para depois encarar uma convivência que se tornou insuportável. O juiz não cede, contra-argumenta que quem teve bons momentos tem de agüentar os maus. Ou seja, decreta a indissolubilidade do casamento.

Ao contrário, os textos mais recentes tratam a questão com maior liberdade. Como Cervantes, mostram as agruras da vida a dois, porém quem quiser separa-se, como tantos casais ficcionais e tantos reais, afinal as portas estão abertas.

"Tudo de Mim", de Emílio Boechat e Petrônio Gontijo, enfoca Marcela e Juliano. O rapaz vai ao aeroporto esperar a moça que, a pedido de uma amiga comum, vai ser sua hóspede. O enredo acompanha-os desde esse primeiro contato até chegarem à primeira e a outras crises. Modernos, eles têm a opção de ficar ou sair. O texto apresenta diálogos curtos e eficientes, com se espera uma dramaturgia. Frequentemente o par se coloca dilemas engraçadíssimos e a platéia morre de rir. Outras vezes ri por se reconhecer nas situações apresentadas.

Todas as cenas se passam na sala de visitas do apartamento de Juliano, um local em constantes mudanças e não apenas de decoração. É uma pena que a cenografia de Marco Lima e Leopoldo Pacheco - que também assinam os ótimos figurinos – sejam um pouco pesada para tantas transformações, visto que acabam por impor alguns blecautes um pouco longos. Mas é um detalhe que não consegue ofuscar as qualidades da montagem. Ainda mais devido `interpretação excelente de Petrônio Gontijo (além de autor, protagonista), tornando Juliano extremamente humano e sensível, conferindo-lhe maior profundidade. De um modo complementar Bianca Rinaldi se responsabiliza pela comicidade. Cria uma personagem meio excêntrica e bem exigente, composta com igual cuidado.

Gontijo é conhecido inclusive no teatro por fazer parte do elenco de sucesso como "Caixa Dois" e "Últimas Luas", mas contracenou com Bianca na televisão, na novela "Pícara Sonhadora". Ambos estão afinadíssimos. Mérito inclusive, é claro, da competente direção de Abílio Tavares, cujos trabalhos anteriores se restringiram ao Teatro da Universidade de São Paulo (Tusp), os quais já atestavam – como é o caso de "Interior" – grande talento na condução de elencos em geral mais numerosos e complexos. Demonstravam ainda sua competência como iluminador, o que se repete em "Tudo de Mim", especialmente na bela cena final. Por tudo isso, o espetáculo vale uma ida ao teatro.

Maria Lúcia Candeias é doutora em teatro pela USP e professora da Unicamp.
A peça "Tudo de Mim" está no Teatro Folha, em São Paulo.

Caderno da GAZETA MERCANTIL – Página 7
sexta-feira, 10, 11, 12 de janeiro de 2003

 
 
Voltar - Home / Cultura / Tudo de Mim
 

Casuloterapia ® - Todos os direitos reservados - 2003-2005