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Em cena, a difícil arte de amar

O espetáculo "Tudo de Mim" aborda com sensibilidade e bom gosto as dificuldades de um jovem casal para fazer com que a paixão do início se transforme num relacionamento estável e duradouro

Aguinaldo Ribeiro da Cunha

Crítica

Em "Tudo de Mim", cartaz do Teatro Folha, pela primeira vez temos o trabalho conjunto dos autores: Emílio Boechat e Petrônio Gontijo. O primeiro é autor conhecido, com textos cenicamente interessantes e vigorosos, vomo "Camila Baker", sempre numa linha reflexiva e cômica, que tem encontrado receptividade junto ao público e a crítica. O segundo, ator jovem e talentoso, com carreira dinâmica, estréia com essa peça na dramaturgia.

O tema escolhido por ambos é delicado – e difícil: o relacionamento amoroso e sua essência mais profunda, aquela em que os parceiros se conhecem, com as qualidades e defeitos de ambos perfeitamente identificados, e resistem ao impulso de partir para novas descobertas, preferindo ao invés disso aprofundar a relação, torná-la mais concreta e verdadeira. Os autores parecem querer dizer que o início ou o rompimento de um relacionamento é mais fácil que sua manutenção, o que é, fundamentalmente, exato.

Boechat e Gontijo conseguem, com esse texto delicado e humano, realizar seu intento. Impossível ao público não se identificar com personagens e situações, pois a peça parte do que há de mais natural e simples: a atração mútua, que se desdobra na conveniência e vê surgir o inesperado no cotidiano que une duas pessoas. Nada é mais difícil que a compreensão, a tolerância, o reconhecimento das diferenças. Só isso permite aprofundar a relação afetiva – e os autores mostram no texto como e porque isso acontece.

O enredo para a reflexão proposta vai buscar sua personagens no mundo urbano contemporâneo que nos cerca: um vitorioso profissional de marketing conhece e se apaixona por jovem ainda inexperiente. Personalidades quase que opostas: ele mais interiorizado, ela, extrovertida, um medindo as conseqüências de seus atos, outro, as ignorando.

Aos poucos – e é hábil e dinâmica apresentada pelo texto, de como uma relação transforma as pessoas – ambos mudam: ele passa a querer viver a vida de outro jeito, mais informal, de modo mais verdadeiro consigo mesmo, ela assume um caráter mais aceito socialmente, torna-se executiva de sucesso. A situação inverte-se e o texto deixa entrever que tudo pode mudar ainda uma vez. Afinal, nada é definitivo, cabe às pessoas a conquista permanente do espaço afetivo.

Abílio Tavares, um diretor com reconhecido trabalho desenvolvido junto ao TUSP (Teatro da Universidade de São Paulo), onde há pouco tempo concebeu "Interiores", um espetáculo de muita sensibilidade e delicadeza, dirigiu "Tudo de Mim" com essa mesma sensibilidade e tons delicados, ressaltando, no espetáculo, as qualidades do texto e colocando os atores em absoluto primeiro plano.

Petrônio Gontijo tem um desempenho de muito apuro técnico, sublinhando nuances de comportamento do personagem e compondo, com bastante sutileza e força cênica, o papel do homem apaixonado e entregue à relação. Bianca Rinaldi, talvez menos bem na parte inicial, quando o papel requer mais extroversão, encontra o tom exato do personagem na segunda parte, interpretando com segurança o papel da jovem executiva e os momentos do desencontro afetivo. A registrar o bom gosto e a qualidade geral da montagem, com bom cenário de Marco Lima, figurinos dele e de Leopoldo Pacheco, iluminação do próprio diretor e a trilha sonora muito bem selecionada por Petrônio, Abílio e Lima.

Cotação: ****
***** Ótimo **** Bom *** Regular **Fraco * Ruim O Não Visto

Diário de São Paulo – Página D3 – Viver
São Paulo, quinta-feira, 30 de janeiro de 2003

 
 
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