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Mistérios alheios devassados no palco.
Na peça Segredo, 17 atores revelam lembranças escondidas de uns e outros
As luzes do palco do TUSP se acendem e, progressivamente, 17 atores começam a tocar nas zonas mais escondidas de suas lembranças. Para que a dor não seja muito intensa e nem a intimidade tão devassada, cada ator se limita a fazer sobre um mistério alheio, cujo dono terá sua identidade preservada. É sobre esta delicada estrutura que se apóia o espetáculo “Segredo” em cartaz no teatro da rua Maria Antonia. Conduzido pelo diretor Abílio Tavarez e um grupo de seis terapeutas, o elenco construiu um espetáculo baseado em historias pessoais, grande parte delas situadas na infância e inicio da adolescência. Não houve lugar para um dialogo sequer de ficção, em contrapartida, também não se economizou recursos para preservar no anonimato o sujeito de cada segredo. “É um trabalho arriscado, que foi feito com muito cuidado, diz Tavarez.. “O risco de se render a espetacularização da dor e da tragédia existe e é muito grande. Este é o projeto mais importante da minha vida “.
Essa tendência de colocar o dedo na própria ferida teve inicio no espetáculo anterior do TUSP, Interior, encenado de 2002 a 2003. Mas ali o trabalho abrangia questões mais amplas, geralmente ocorrências familiares em que o ator nem sempre era o principal personagem da historia. Agora o tiro foi mais certeiro: os relatos de amor, fé, sexualidade, violência e solidão que compõem Segredo dizem respeito diretamente a cada ator da companhia. Como no caso de uma atriz que, em uma das cenas mais contundentes da peça, detalha para o publico a noite em que um parceiro a contaminou com o vírus da Aids.
Tavarez afirma que o grande desafio desde espetáculo é justamente este: trazer a tona um segredo, mas sem permitir que o público saiba a quem ele pertence.
As leis da discrição foram tão rígidas que, não maioria das vezes, os próprios atores desconhecem quem é o autor da intimidade que esta sendo revelada. Para se chegar a esta formula, Tavarez trabalhou da seguinte maneira: no inicio do processo, cada ator foi convidado a escrever, em um pedaço de papel, o segredo mais delicado de sua vida. Após isso, os papeis foram depositados em uma espécie de urna. Cada um dos atores, em seguida, retirou um papel da urna e, caso não tratasse de seu próprio segredo, foi autorizado a ler o conteúdo em voz alta. E foi apartir desses relatos que Tavarez costurou a dramaturgia do espetáculo. Assim, Segredo resultou numa obra muito fragmentada, um mosaico de sensações em que algumas sensações em que algumas histórias se fecham e outras não. “Tornar publicas tantas intimidades exigiu muita coragem dos atores. Durante os ensaios, ele fizeram, semanalmente, uma hora de terapia, em sessões individuais, para poder encarar as questões mais profundas deste processo”, diz diretor. “O objetivo da peça não é a exposição do segredo, e sim a transformação do individuo após esta revelação”.
Tavares assume, no entanto, que em determinados momentos uma luz vermelha se acendeu durante os ensaios. “Tivemos um cuidado para não colocar no texto final aquilo que era intimo demais. Algumas questões, de tão delicadas e espinhosas, foram abandonadas porque nem sempre as pessoas estão preparadas para lidar com elas”.
Segredo
De Abilio Tavarez. TUSP.
Rua Maria Antonia, 294 - Tel: 3255-5538. Censura 14 anos
Sexta e Sabado, 21 h; Domingo, 20 h. R$ 15,00. Até 26 de Junho.
Jornal Diário do Comércio - 01/04 a 03/04/2005
Sérgio Roveri
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